sábado, 16 de janeiro de 2016

Galeria dos Mártires - Mário Alves de Souza Vieira

MÁRIO ALVES DE SOUZA VIEIRA
A dignidade de um revolucionário
RIO DE JANEIRO * 16/01/1970

Mário Alves, preso, torturado e assassinado, que anos depois tornou-se o primeiro desaparecido politico reconhecido pelo estado Brasileiro. A viúva, que sempre lutou por justiça, escreveu à esposa de um embaixador sequestrado:

“Todos conhecem seu sofrimento, sua angustia. A imprensa falada e escrita focaliza todos os dias o seu drama. Mas do meu sofrimento, da minha angustia ninguém fala. Choro sozinha. Não tenho os seus recursos para me fazer ouvir, para dizer também que tenho o coração partido, que quero o meu marido de volta. O seu marido está vivo, bem tratado, vai voltar. O meu foi trucidado, morto sob tortura, pelo 1° Exército, foi executado sem processo, sem julgamento. Reclamo seu corpo. Nem a Comissão de Direitos da Pessoa Humana me atendeu. Não sei o que fizeram dele, onde o jogaram. Ele era Mário Alves de Souza Vieira, jornalista. Foi preço no dia 16 de janeiro do corrente, na Guanabara, pela polícia do 1° Exército e levado para o quartel da PE, sendo espancado barbaramente de noite, espancado com um cassetete dentado, o corpo todo esfolado por escova de arame, por se recusar a prestar informações exigidas pelos torturados do 1° Exército e do DOPS. Alguns presos, levados à sala de tortura para limpar o chão sujo de sangue e de fezes, viram meu marido moribundo, sangrando pela boca e pelo nariz, nu, jogando no chão, arquejante, pedindo água, e os militares torturadores em volta, rindo, não permitindo que lhe prestasse nenhum socorro. Sei que a Senhora não tem condições de avaliar meu sofrimento, porque a dor de cada um é sempre maior do que a dos outros. Mas espero que compreenda que as condições que levaram meu marido a ser torturado até a morte e o seu sequestrado são as mesmas causas; que é importante saber que violência-fome, violência-miséria, violência-opressão, violência-atraso, violência-terrorismo, violência-guerrilha; que é muito importante saber quem pratica a violência – os que criam a miséria ou os que lutam contra ela”.


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