terça-feira, 10 de julho de 2018

Galeria dos Mártires - Dom Carlos Horário Ponce de León

DOM CARLOS HORÁRIO PONCE DE LEÓN
Mártir da Justiça
ARGENTINA * 11/07/1977

Carlos Horacio Ponce de León, nasceu em Navarro, 17 de Março de 1914,  foi bispo da diocese de San Nicolas de los Arroyos (província de Buenos Aires).

Ordenado sacerdote em 17 de dezembro de 1938, depois de ter completado seus estudos no Seminário Arquidiocesano de Buenos Aires. Em 09 de Junho de 1962, foi nomeado bispo auxiliar de Salta (província de Salta) e em 15 de Agosto de 1962, recebeu a consagração episcopal na Basílica de Santa Rosa

Em 28 de abril de 1966, foi nomeado bispo titular de San Nicolas los Arroyos pelo Papa Paulo VI e esteve a frente da diocese por 11 anos.

Durante os onze anos em que governou a diocese de San Nicolas, realizou e impulsionou toda a obra do apostolado de ação social em uma atitude permanente de serviço à comunidade, em cumprimento de seu lema episcopal expressa no escudo que sintetiza toda a sua vida. "Eu não vim para ser servido, mas para servir". Pelo seu compromisso pastoral e social é que ele foi capaz de colocar sua vida em risco para ajudar que o povo argentino tivesse seus direitos respeitados. 

De acordo com organizações de direitos humanos, Ponce de León foi considerado um "bispo vermelho" na área norte de Buenos Aires, onde ele tinha entrado em confronto com militares de San Nicolás que até o apelidaram de "monsenhor ambulância", porque ele costumava recolher os feridos em confrontos e atendia os familiares dos desaparecidos. 

Carlos Ponce de León teve uma importante atuação episcopal durante a ditadura do autodenominado Processo de Reorganização Nacional que tinha estourado em 1976, e secretamente, a sangue e fogo causou extrema violência no estado. Ele foi um dos poucos membros da hierarquia da Igreja Católica Argentina a criticar os abusos e crimes contra os direitos humanos, tais como o assassinato do bispo Enrique Angelelli por uma "força-tarefa militar", em 1976.

A partir de 24 de Março de 1976 recebeu os familiares dos desaparecidos. Recebia a cada uma das famílias que lhes pediam que intercedesse para saber o paradeiro de seus filhos. Quando os sacerdotes o questionou porque ele foi interceder pelos familiares e questionar a repressão, tortura e desaparecimento de pessoas, ele respondeu: "Por que devo ir, eu não estou fazendo nada de errado". Ponce tinha organizado documentos sobre a repressão executada em sua diocese.

Há testemunhas que dizem que Ponce de León recebia constantes ameaças de morte na qual diziam que ele "não passaria de julho", que o haviam perseguido e insultado na rua e tinha informações importantes sobre o assassinato de sacerdotes Palotinos, que ocorreu um ano antes. Ele estava sendo monitorado continuamente pelos militares.

Depois do assassinato do bispo Enrique Angelelli, ele disse: "Agora é comigo",  que deveria assumir as mesmas causas e os mesmos riscos; denunciar o desrespeito aos direitos humanos que o povo de sua diocese estava sofrendo, e por seu compromisso de anuncio do Evangelho e denuncia de tantas atrocidades praticadas por parte dos militares é que a perseguição se tornou mais intensa. 

Em 11 de Julho de 1977, o bispo Carlos Ponce de León foi morto nas proximidades do cidade de Ramallo. Os carrascos "disfarçados" como motoristas inocentes utilizaram a mesma metodologia usada para o assassinato de Monsenhor Angelelli em Rioja. 

Ponce de León estava indo de San Nicolas para a cidade de Buenos Aires pela Estrada Nacional n.º 9 em um carro Renault 4S, entre outras questões a resolver pelo caminho, ele visita um seminarista internado em Buenos Aires. A 11 km de San Nicolas, no km 212 um Ford F100 que estava viajando na direção oposta fez uma manobra para evitar a colisão com um ônibus estacionado. Por causa da chuva, a caminhonete virou e atravessou a pista contraria onde vinha o carro do bispo, causando a colisão. Ponce de León morreu de hemorragia cerebral, sem fraturar nenhum dos ossos.

Tal como no caso de Monsenhor Angelelli, o acidente de trânsito que causou a morte de Ponce foi simulado. 

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Galeria dos Mártires - Pe. Faustino Villanueva

Pe. FAUSTINO VILLANUEVA
Mártir do Povo Indígena de El Quiché
GUATEMALA * 10/07/1980

MEMÓRIA DOS 38 ANOS DE SEU MARTÍRIO

Pe. Faustino Villanueva, missionário espanhol do Sagrado Coração, de 50 anos. 

Durante vinte anos trabalhou no serviço pastoral na Guatemala, especificamente entre os indígenas de El Quiché; sendo pároco de Joyabaj. 

Foi assassinado no dia 10 de Julho de 1980 por dois homens armados que o procuraram após a missa.

Crivado de balas no seu próprio escritório paroquial. Não foi permitido aos fiéis recolher o cadáver que foi entregue em Chichicastenango. 

Faustino morreu por sua entrega aos indígenas, que são de fato os marginalizados da sociedade guatemalteca. Assassinado por ser dessa Igreja que defende os pobres e marginalizados.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Galeria dos Mártires - Arturo Bernal

ARTURO BERNAL
Mártir da Terra
PARAGUAI * 07/07/1976

Arturo Bernal, paraguaio de 50 anos. Casado e pai de cinco filhos com idade entre oito e quatorze anos. Dirigente das Ligas Agrárias – um sindicato rural de origem cristã.

Arturo foi detido pela polícia em seu domicílio em Peribebuy, Caacupé, em 12 de maio, juntamente com outros camponeses, também membros das Ligas Agrarias.

Permaneceu incomunicável. Foram dias inteiros nos choques elétricos, golpes, afogamentos simulados, insultos, jogado na terra fria. Arturo, tuberculoso crônico, não podia resistir. Morreu sob tortura no Departamento de Investigações da Polícia de Assunção e seu corpo martirizado foi entregue à família no dia 07 de junho de 1976 dentro de um caixão fechado, com a ordem de enterrarem imediatamente.

Com respeito à sua enfermidade, confessava ele a um sacerdote companheiro de caminhada entre os camponeses: “Padre, sei que vou morrer em breve, mas antes de cair na cama, prefiro estar de pé, trabalhando para manter minha família e ajudando os companheiros das Ligas Agrárias”.

Dias depois de sua morte, o bispo de Caacupé escreveu ao Ministro do Interior responsabilizando-o pelo fato.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de leitura dos livros: Sangue Pelo Povo

terça-feira, 3 de julho de 2018

Galeria dos Mártires - Alfredo Kelly, Pedro Duffau, Alfredo Leaden, padres; Salvador Barbeito e José Barletti, seminaristas

ALFREDO KELLY, PEDRO DUFFAU, ALFREDO LEADEN, SALVADOR BARBEITO e JOSÉ BARTELLI
Mártir da Justiça
ARGENTINA * 04/07/1976

Integrantes da comunidade religiosa dos palotinos, da paróquia de São Patrício, de Buenos Aires. Alfredo Kelly, Pedro Duffau e Alfredo Leaden, padres; Salvador Barbeito e José Bartelli, seminaristas. Ambos entusiastas animadores de comunidades juvenis.

Todos foram assassinados na casa paroquial na madrugadas, com descargas de metralhadoras, depois de serem barbaramente torturados.

Na manhã seguinte um paroquiano, não vendo os padres, subiu até a casa paroquial. Como bateu na porta e ninguém respondeu, entrou por uma janela e encontrou os religiosos fuzilados.

O Padre Alfredo Kelly, em sua homilia do domingo anterior, condenara a pena de morte como violação dos direitos humanos.

Salvador recebeu ameaças pelo enfoque que dava à catequese do colégio. É desconhecida qualquer atuação politica de qualquer membro da comunidade.

Segundo testemunhas que declararam diante das autoridades eclesiásticas, os integrantes do comando assassino pertenciam aos serviço de inteligência. Na casa estava escrito com sprey:"Pelos companheiros mortos da Segurança Federal", e ainda: "Por corromperem as mentes virginais dos jovens".

Os assassinos entraram sem forçar portas ou janelas. Reuniram a todos na sala da comunidade. Não houve resistência. Alguns dos mortos tinham os rostos desfigurados. Um deles era irmão do bispo Leaden.

A conferência Episcopal perguntou em nota de 7 de julho de 1976: "...que forças tão poderosas são as que com toda impunidade e com completo anonimato podem agir a seu arbítrio, em meio a nossa sociedade?".

Pe. Alfredo Kelly
Pe. Pedro Duffau


Pe. Alfredo Leaden
Salvador Barbeito
                                                                                                                                                                                                         
José Barletti



                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           




As “Mãos Ensanguentadas de Jesus”: outro olhar possível - Reginaldo Veloso

Surpreendentemente contemplado com o troféu LOUVEMOS/2018, “mérito especial”, concedido pela TV Século 21, viajei do Recife a São Paulo, na manhã de 20/06, para recebê-lo, não sem alguma ansiedade. Chegando ao aeroporto de Viracopos, em Campinas, um pouco após o meio dia, esperava-me o Marcão, com a viatura da TV Século 21, devidamente caracterizada pela logo das “Mãos Ensanguentadas de Jesus”.

Mal dei com os olhos naquela inscrição, confesso que fiquei fortemente impactado. E mais que rapidamente, em minha mente, se acendeu a visão do Juízo Final. Tanto quanto a visão das Mãos ensanguentadas impactaram meus olhos, as palavras taxativas do Mestre retiniram em meus ouvidos: “Afastem-se de mim malditos. Vão para o fogo eterno, preparado pra o diabo e seus anjos. Porque, eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar”. Mais impactante ainda foi escutar a pergunta dos condenados “Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede, como estrangeiro ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?”, seguida da resposta do Rei, que lhes dirá clara e inapelavelmente: “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram” (Mt 25,41-45).

E logo me dei conta dos cravos que, hoje, traspassam cruelmente as Mãos de Jesus:
·        Primeiramente, o cravo da fome: “Eu estava com fome, e vocês não me deram de comer” (Mt 25,42ª):  é só pensar nos mais de 13 milhões de desempregados, com suas famílias, juntando a isso os cortes nos programas sociais que têm a ver com o pão de cada dia. De dois anos para cá, nosso país, volta, assim, a marcar vergonhosa presença no “mapa da fome” desenhado pela ONU, do qual havia saído durante a gestão de um presidente operário. A fome causada pelo desemprego tem muito a ver com a, com a infame “Reforma Trabalhista” que implanta sistematicamente a precarização do trabalho, a insegurança no emprego, o enfraquecimento dos Sindicatos, a perda de direitos sagrados, conquistados a preço de sangue durante bem um século de lutas da Classe Trabalhadora.

Mas a fome tem a ver, sobretudo, com a realidade fundiária do país que, desde a concessão das “Capitanias Hereditárias”, consagrou o latifúndio, muitas vezes, improdutivo, como regime de posse e utilização da terra, condenando à condição de “Sem Terra”, de norte a sul e de leste a oeste, uma legião imensa de gente do campo.

À fome ou à ameaça da fome, se ajunta, o cravo do veneno, a traspassar todos os que trabalham nos campos e, muito mais, todos os que consomem tudo quanto chega a nossas mesas contaminado pelo uso abusivo de agrotóxicos. O Agronegócio brasileiro, representado poderosamente no Poder Legislativo pela Bancada Ruralista, se demonstra vergonhosa e criminosamente conivente com os interesses genocidas dos fabricantes multinacionais desses venenosos insumos.

Passar fome ou envenenar-se por conta do que se come, eis o drama que vivemos todos e todas neste país! Por conta do cravo da fome e do agrotóxico, corre Sangue, hoje, das Mãos de Jesus!
·         Em seguida, o cravo da sede: “Eu estava com sede e mão me deram de beber”. Não quero referir-me apenas ao que ciclicamente ocorre o Nordeste e de fato acaba de ocorrer nos últimos seis anos, fenômeno natural que bem pode ser contornado com políticas de armazenamento de água e transposição de rios, como veio ocorrendo nas gestões populares de passado recente.

Quero chamar a atenção para as deficiências todas das políticas de saneamento básico, que deixam tanta gente passar necessidade de água em suas moradias, sobretudo nas periferias de nossas cidades.

Mas, o cravo da sede, que vem traspassando as Mãos de Cristo hoje, acontece, também e lamentavelmente, por conta do envenenamento dos mananciais e dos lençóis freáticos, nas regiões pulverizadas pelos agrotóxicos do Agronegócio, a que nos referimos acima, deixando populações inteiras privadas do precioso líquido ou obrigadas a consumi-lo nessas condições.

E nossa preocupação aumenta quando sabemos da ameaça que pesa sobre o nosso país submetido a uma gestão que se apressa em vender e privatizar todas as nossas riquezas naturais, patrimônio precioso do povo brasileiro, entre outras, a nossa ÁGUA. Por conta do cravo da sede, da falta de água e do envenenamento das águas, corre Sangue, hoje, das Mãos de Jesus!

·         O cravo da falta de habitação: “eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa”. São legiões de famílias morando mal ou simplesmente ”sem teto”. O drama das famílias que moram em palafitas, à beira dos mangues ou nos alagados... ou então ameaçadas pelo deslizamento de barreiras nas encostas dos morros... ou ainda, ameaçadas por ordem de despejo e reintegração de posse, quando ousam ocupar terrenos baldios, ociosos, à mercê das ambições da especulação imobiliária, ou imóveis urbanos desocupados, inclusive prédios públicos, às vezes, correndo o risco de tragédias, como há pouco aconteceu no centro de São Paulo...

Ajuste-se a isso, o drama dos migrantes provindos de outros países, sobretudo, nesses últimos tempos...

Por conta deste cravo da falta de habitação, corre Sangue, hoje, das Mãos de Jesus!

·        E o cravo da nudez?... “Eu estava sem roupa, e não me vestiram”. Não é difícil imaginar a situação, não só do “Povo da Rua”, mas de tantas famílias que, ao longo de um inverno, que vai se demonstrando rigoroso, além da dificuldade de se prover do alimento, com certeza, passa, igualmente, outras necessidades básicas, por exemplo, sem poder abrigar-se do frio, por impossibilidade de adquirir o agasalho necessário e suficiente. Pensemos nas crianças e nos idosos passando frio, nas ruas ou nas favelas...Por conta do cravo da nudez, corre Sangue, hoje, das Mãos de Jesus!

·         E ainda o cravo do abandono na doença: “Eu estava doente (...), e vocês não me foram visitar”. Para além do descaso com que certas famílias tratam seus doentes, especialmente seus idosos, abandonando-os em hospitais públicos ou em precários abrigos, estamos, dia após dia, assistindo ao descaso dos governos com a Saúde Pública, sobretudo, o desmonte e sucateamento do SUS, uma das maiores conquistas do povo brasileiro, 30 anos atrás, quando nossa Constituição Cidadã de 1988 estabelecia que “saúde é um direito de todos e dever do Estado”.

Precisamos lembrar que a perversa lei que congelou os gastos públicos por 20 anos, aprovada pela tríplice “Bancada do Boi, da Bala e da Bíblia”, é a grande responsável por esse perverso processo de sucateamento, que outra finalidade não tem senão privatizar os Serviços Públicos.

Como se não bastasse, mais um crime hediondo está sendo cometido contra a Saúde do povo: a principal fonte de recursos para a manutenção e avanço do SUS seria a exploração do petróleo do PRÉ-SAL, que graças a nossos espúrios governantes, está sendo vendido aos abutres das petrolíferas multinacionais.

Por conta do cravo do abandono na doença, corre Sangue, hoje, das Mãos de Jesus!

·         Finalmente, o cravo do abandono na prisão: “Eu estava (...) na prisão, e vocês não me foram visitar”. Se por conta da doença, irmãs e irmãos nossos se encontram abandonados em hospitais e abrigos, imaginem o que possa estar ocorrendo nas prisões deste país!... Mas o abandono por parte das respectivas famílias, se agrava exponencialmente por conta dos horrores da política carcerária deste país, uma afronta escandalosa a tudo quanto se possa entender como Direitos Humanos inerentes a toda e qualquer pessoa humana, onde quer que se encontre, não importa em que circunstância ou vicissitude: além da  absurda superlotação, o que deveria ser um espaço de reeducação e ressocialização, são antros de desumanidade e apodrecimento moral, “universidades” do crime, a que as pessoas são relegadas, tanto por ineficiência do Poder Judiciário, quanto por incompetência, irresponsabilidade e, mesmo, perversidade do Poder Executivo, em todas as suas instâncias, de cima  a baixo, do Ministério e das Secretarias de Justiça a Agentes Penitenciários.

Mas há algo de mais grave, de abrangência muito maior e de consequências muito mais funestas: a quantidade imensa de pessoas neste país, submetida às prisões ideológicas resultantes dos preconceitos que sempre estiveram na raiz dos processos econômicos, sociais, políticos e culturais que engendraram a sociedade brasileira, tradicionalmente dominada por brancos, ricos, machos, cristãos e heterossexuais: no avesso das categorias hegemônicas, os negros e as populações nativas, os empobrecidos e toda a Classe Trabalhadora, as mulheres, os seguidores das religiões de matriz africana, o segmento LGBT.

Igualmente, as prisões da ignorância, quando se dificulta ou simplesmente se nega  acesso à Educação... Em recentes experiências de governos populares, o país parecia caminhar rapidamente, para um novo patamar de Educação do povo, com a interiorização e ampliação do Ensino Técnico e Superior, inclusive com as políticas afirmativas de concessão de quotas aos segmentos mantidos até pouco tempo fora do alcance dessas possibilidades ... Mas, estamos assistindo estarrecidos ao desmonte sistemático, ao esvaziamento progressivo dessas políticas... Estamos assistindo ao sucateamento sistemático de todo o sistema educacional do país, graças, sobretudo à lei que congelou os gastos públicos, e a sorrateira proposta de privatização dos Serviços Públicos...

Piores ainda, talvez, as  prisões da desinformação e da lavagem cerebral sistemática a que a massa está sendo submetida, sendo impedida de perceber criticamente a realidade, graças ao papel criminoso desempenhado pela grande Mídia, patrocinadora do Sistema , e boa parte do que acontece com as Redes Sociais, nas mãos dos produtores ou repassadores da “mentira institucional” e da alienação planejada do povo, para que não veja, não se mobilize e não lute por seus Direitos e contra todos esses desmandos...

Emblematicamente, quem esteve à frente de um processo virtuoso de inclusão e de acesso das massas aos Bens de consumo e Serviços Sociais básicos, minorando a aberrante desigualdade vigente desde sempre neste país, encontra-se hoje condenado por uma Justiça viciada e aparelhada pelo Sistema, e preso nos cárceres da Polícia Federal em Curitiba. Sem esquecer o assassinato encomendado de Mariele Franco, mulher, negra, favelada, lésbica, uma vereadora eleita entre as candidatas e candidatos mais votados no município do Rio de Janeiro.

Por conta do cravo do abandono nas prisões, das prisões ideológicas, das prisões da ignorância, das prisões da desinformação, e das prisões políticas, corre Sangue, hoje, das Mãos de Jesus!

As palavras que “o Rei” haverá de pronunciar no Juízo Final, por graça, nos ecoam antecipadamente aos ouvidos, e vale a pena retomá-las: “Afastem-se de mim malditos. Vão para o fogo eterno, preparado pra o diabo e seus anjos. Porque, eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar”. E já não valerá mais desculpa alguma, nem a pergunta: “Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?”. Porque a resposta já nos foi adiantada em tempo: “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram” (Mt 25,41-45).  
Os devotos das Mãos Ensanguentadas de Jesus, muito especialmente, mas todos os Cristãos e Cristãs, estamos sendo, desde sempre, responsabilizados pelos cravos que hoje fazem jorrar Sangue das Mãos de Jesus, seja quando contribuímos direta e intencionalmente para a fome, a sede, a nudez, o desabrigo, o abandono na doença ou na prisão, de tanta gente; seja quando vemos esse filme de horror passar diante dos nossos olhos e fazemos como o “sacerdote” ou o “levita” da conhecida e  famosa Parábola (Lc 10,25-37), passamos “adiante, pelo outro lado”.
O que de todos e todas nós se espera é que permitamos às Mãos de Jesus, que constatamos cravadas por tantos cravos e chocantemente “ensanguentadas”, passem, aqui e agora, a agir através de nossas mãos, para arrancarem eficazmente, e o mais rápido possível, todos esses cravos tão cruéis das mãos de tanta gente. E nós possamos, “naquele dia”, escutar, felizes, o que Jesus dirá às pessoas justas, que souberam ouvir e praticar a sua palavra: “Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e vocês me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar” (Mt 25,14-16).
É claro que se trata muito mais do que da tradicional “caridade” que se costuma praticar entre cristãos e cristãs para com os pedintes que batem à nossa porta ou encontramos pelas ruas...
E é para ser mesmo como?... Procuremos conversar, como vem fazendo exemplarmente o Papa Francisco com o povo dos Movimentos Sociais Populares... Essa gente nos saberá dizer, melhor que ninguém, o quê e como fazer. Não começaria por aí a “Igreja em saída”?...
Mais do que nunca, precisamos atender ao convite que, há mais de 50 anos, nos fazia o santo Papa João XXIII: arregalar os olhos para os “sinais dos tempos”. E “quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2,29).
Oxalá, percebamos, em tempo, que ser cristão, ser cristã, hoje, sem assumir a dimensão política da nossa Fé, seria, quando muito, brincar de Evangelho...  Seria nada entender do PAI NOSSO que rezamos, ao não nos darmos conta do que pedimos, ou não nos colocarmos à disposição do Pai para fazer a nossa parte... quando a alegria que nos vem da Fé é podermos alegrar-nos por ver o seu Reino vir a nós, e a sua vontade ser feita “assim na terra, como no céu”.
                      

  Reginaldo Veloso, presbítero leigo das CEBs
                       Assistente do Movimento de Trabalhadores Cristãos - MTC
                       Assessor Pedagógico do Movimento de Adolescentes e Crianças – MAC               
                       Membro da Equipe de Reflexão sobre a Música Litúrgica da CNBB

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Galeria dos Mártires - Frei Tomás Zavaleta

Frei TOMÁS ZAVALETA
Mártir da Igreja dos Pobres
NICARAGUA * 03/07/1987

Memória dos 31 anos de seu Martírio

Tomás Zavaleta nasceu em Olocuilta, El Salvador, em 1947. No ano de 1966 entrou para congregação Franciscana no seminário menor de Planes de Renderos, e em 1975 fez sua Profissão Solene.

Trabalhou por 11 anos nos Seminários de Plenes de Renderos (El Salvador) e San Buenaventura (Guatemala), sempre vivendo com alegria e atendendo a todos com humildade e fé.

Durante os anos de 1979 a 1983 prestou serviço à Curia General dos Franciscanos em Roma, e seu superior geral na ocasião Jhon Vaugh, assim disse de Frei Tomás: “Tomás era um amigo, um companheiro maravilhoso, um homem muito atento, um frade de profunda oração e muita confiança”.  

Foi enviado no ano 1986 para Matiguas na Nicarágua, em plena zona de conflito.

No dia 3 de julho de 1987, regressando de uma arriscada missão humanitária, uma mina anti-tanques explodiu o veiculo em que viajava, se tornando a primeira vítima da guerra contra-revolucionária na Nicarágua.

Se tornou mártir da Igreja dos Pobres, da Caridade e da Solidariedade Centro-americana.
  
Seus restos mortais descaça no Cemitério “Jardins das Recordações” em El Salvador.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de pesquisa na Internet.

Pe. Túlio Maruzzo e Luiz Obdulio Arroyo Navarro

Pe. TÚLIO MARUZZO e LUIZ OBDULIO ARROYO NAVARRO
Mártires pela Causa do Evangelho
GUATEMALA * 01/07/1981

Túlio Maruzzo, sacerdote franciscano, missionário italiano de Vicenza, com poucos anos de ordenado foi em missão para a Guatemala e trabalhou mais de 20 anos a serviço do povo pobre da diocese de Izabal, onde era pároco de Quirigua e Los Amates.

Sem radicalismo, sem alarde, mas de forma pacifica, humilde e serviçal, soube realizar na sua vida e sobretudo na sua morte a figura do Bom Pastor.

Amigo de todos, percorria a pé ou a cavalo, a região sul de Izabal, para cumprir sua missão de coordenador das Comunidades Eclesiais de Base.

Procurou encarnar-se na realidade da Guatemala e manter-se atualizado no processo teológico pastoral da América Latina.

No dia 1º de julho de 1981, foi assassinado juntamente com o catequista Luiz Navarro que sempre o acompanhava.

Os bispos da Guatemala disseram dias antes do assassinato do Pe. Túlio: "Como ao próprio Cristo, também à Igreja o cumprimento de sua missão acarreta conflitos, críticas injustificadas, calúnias e perseguição. Já são numerosos os sacerdotes, religiosos e catequista que pagaram com sua vida a fidelidade a Cristo e ao povo".

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de leitura dos livros: Sangue Pelo Povo e Martírio, memória perigosa na América Latina hoje.

Galeria dos Mártires - Pe. Hermógenes Lópes Coarchita

Pe. HERMÓGENES LÓPES COARCHITA
Mártir do Povo
GUATEMALA * 30/06/1978

Hermógenes Lópes Coarchita, sacerdote guatemalteco, pároco em São José Pinula e fundador da Ação Católica Rural. Tinha 50 anos e há doze anos pároco local. Assassinado quando regressava de uma visita a um doente. Por conta das diversas ameaças de morte, viajava sempre sozinho para não sacrificar a outros. 

Estava sozinho quando três homens com pistola 45 e armas de grosso calibre o matou à queima-roupa. Seu corpo metralhado caiu sobre a Bíblia, dentro da pick-up em que viajava. Os moradores encontraram seu corpo perfurado de balas na estrada. Tomados de dor e indignação levaram o corpo ensanguentado e o colocaram sobre o altar, no qual tantas vezes ele compartilhou com o povo, o pão e a palavra.

As causas de sua morte são muito clara: Hermógenes denunciou a forma brutal de recrutar jovens para o serviço militar dizendo: "Respeitem a dignidade dos jovens camponeses e não os maltratem nem os levem forçados para preencher os números dos quartéis".

Opôs-se ao projeto da grande empresa AGUAS S.A. que deixaria sem água os camponeses, e a eles disse: "Não é lícito que vocês levem a água dos camponeses para vendê-la na capital"; protestou pelo alto custo do leite; denunciou a "campanha de vacinação", que não era senão uma campanha de esterilização das mulheres, e disse às autoridade do país: "A esterilização em massa é um desrespeito à dignidade e aos direitos das pessoas".

Todas as suas denúncias nada tinham de arrogância. Falava em nome do Evangelho, com profunda humildade, sem interesse próprio, falava como amigo dos pobres.

Apesar das constantes ameaças de morte, Hermógenes afirmou: "Se minha missão é dar a vida, assim farei. Mas nunca deixarei de lutar pelas causas que defendo". Em meio ao clima de violência vivido na Guatemala, dissera apenas cinco dias antes de morrer: "Se for necessário o sangue de um de nós para que haja paz, estou disposto a derramar o meu".

Em seu funeral estiveram presente 4.000 camponeses vindos de até 350km de distância. Muitos camponeses ficaram fora, sob a chuva durante as duas horas que durou a celebração presidida por diversos bispos e 50 sacerdotes. "O Padre Hermógenes foi um profeta. Morreu como morrem os profetas: assassinado... Ele clamou como João Batista: Não te é lícito... E por isso o mataram", disse um companheiro sacerdote. E um camponês afirmou: "Sentimos no coração o desaparecimento de nosso pastor... Ele estava conosco para solucionar os problemas do povo".

O Padre Mário Matamoros, reitor do seminário da Guatemala, visitou o Pe. Hermógenes no domingo antes de seu assassinato. Nessa oportunidade haviam conversado muito. Padre Mario dá este testemunho: "Hermógenes era um sacerdote simples e calmo. Quando denunciava algo é porque ele acreditava que o Evangelho não deixava outra alternativa. Disse-me que estava preparado para o que desse e viesse".

Pe. Hermógenes dedicou seus vinte e cinco anos de sacerdócio em defesa dos mais pobres.

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de leitura dos livros: Sangue Pelo Povo e Martírio, memória perigosa na América Latina hoje.

Galeria dos Mártires - Os Mártires de Olancho

OS MÁRTIRES DE OLANCHO
Mártires da Solidariedade
HONDURAS * 25/06/1975

43 anos da memória martirial de Ivan Betancur, Michael Jerome Cypher, “Casimiro”, e Companheiros.

Ivan Betancur era colombiano, de 35 anos, e Michael “Casimiro”, franciscano norte-americano de 34 anos, ambos sacerdotes da Prelazia de Olancho, em Honduras. No dia 25 de junho de 1975 foram assassinados com outros sete camponeses e pessoas vinculadas à promoção do campesinato.

O massacre, preparado em todos os seus detalhes, foi executado por um fazendeiro e membros do exército que, pela manhã desse mesmo dia, haviam suspendido a “Marcha da Fome” e reprimido brutalmente seus responsáveis.

O testemunho de Ivan e de “Casimiro” e o trabalho de conscientização que se realizava através do Instituto “18 de Fevereiro” e da União Nacional dos Camponeses, era insuportável para os latifundiários que pretendiam manter terras e privilégios à custa da fome e da miséria dos camponeses.

As vítimas foram levadas à fazenda “Los Horcones” e aí assassinadas uma por uma, com disparos na cabeça e seus corpos enterrados a 29 metros de profundidade.

Os que conheceram a Ivan recordam-no como pessoa incansável e alegre em seu trabalho pastoral, homem de muita fé e oração, capaz de dar a vida em sua luta pela justiça. Michael “Casimiro” era um verdadeiro testemunho de pobreza e de entrega total à causa do povo, por quem ele morreu.

Seus companheiros mártires são: Juan Benito Montoya, camponês; Ruth Garcia, estudante; Lincoln Coleman, secretário da União Nacional dos Camponeses; Maria Elena Bolívar, cunhada de Ivan; Roque Ramón Andrade, das Escolas Radiofónicas; Oscar Ovidio Ortiz, camponês; Bernardo Rivera, assessor técnico.

Ivan Betancur
Michael Jerome Chrisper

                    Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada,
a partir de leitura do livro: Sangue Pelo Povo.