São Romero da América? Artigo de José María Vigil



São Romero da América? Perguntaram-me: a canonização de Romero faz sentido para nós? Artigo de José María Vigil

  26 Setembro 2018

“De que outra canonização dom Oscar Arnulfo Romero tem necessidade? O que lhe falta? O que uma “canonização oficial” em Roma poderia lhe acrescentar?”, pergunta José María Vigil, teólogo espanhol naturalizado nicaraguense, em artigo publicado por Academia.edu, 23-09-2018. A tradução é de André Langer.

E após desenvolver seu raciocínio, conclui dizendo: “A partir dessa visão, fica claro que não precisamos que Romero seja canonizado. ‘Ele é santo de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada’”, retomando palavras de Pedro Casaldáliga.

"A esta altura da história, - conclui o teólogo - com o tanto que choveu depois de 24 de março de 1980, já não nos parece uma “ofensa”, mas, sobretudo, uma “reabilitação” adicional, redundante, mas útil, sobretudo para as hierarquias religiosa e civil que durante décadas se opuseram ao reconhecimento de “São Romero da América”. É uma boa notícia".

Eis o artigo.

“‘Não canonizem jamais São Romero da América, porque o ofenderiam. Ele é santo, mas de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada’. Essas são palavras que eu disse a Jon Sobrino quando visitei a sepultura do arcebispo mártir. Eu lhe dizia: ‘Olhe, Jon, que a ninguém lhe ocorra canonizar Romero, porque seria como pensar que a primeira canonização não valeu’...”. (Pedro Casaldáliga, El vuelo del Quetzal. Espiritualidad en Centroamérica, Managua 1988, p. 10; disponível aqui, http://servicioskoinonia.org/Casaldaliga/poesia/index.html)

Pedro Casaldáliga contava-o com essas palavras aos camponeses e agentes de pastoral do Panamá, depois da sua passagem por Nicarágua e El Salvador, por volta de 1987/8, em diversos retiros e conversas. Passaram-me a transcrição das fitas, e incluí esse pensamento no livro O voo do Quetzal, que organizamos com esses e outros materiais pastorais de sua “campanha de solidariedade pastoral” com muitas comunidades de base e grupos camponeses da América Central.

Certamente, o túmulo de Romero que Casaldáliga visitou – instalado a princípio no próprio cruzeiro da catedral de San Salvador, a poucos metros do altar do qual pronunciava aquelas suas homilias de fogo, que paravam o país inteiro e eram ouvidas nas montanhas transmitidas pelos rádios dos camponeses e dos pobres de todo o país –, aquele túmulo grande certamente, literalmente coberto de flores, velas, oferendas e fotografias de agradecimento, envelopes cheios de pedidos... era tão visitado e apreciado e beijado por essa interminável fila de salvadorenhos das camadas mais pobres e populares... que foi preciso transladá-lo para a cripta, porque aquele “clamor popular” inutilizava a catedral para servir como tal, com o culto normal de uma catedral.

E assim eram as coisas nos primeiros séculos da Igreja. Obviamente, não havia “processos de canonização”. Era a “aclamação e a devoção popular” o que de fato definia o “cânon”, a medida da santidade reconhecida na Igreja. Não havia um registro oficial – o que viria a ser o “Santoral e o Martirológio Romano” –, muito menos se havia materializado tudo em um processo jurídico especializado (e economicamente caro) na cúria romana.
Isso passaria a acontecer somente no século XIII, quando as canonizações ficaram reservadas a Roma e ao Papa.

O estudo estatístico da “população” canonizada no último milênio não deixa de ser significativo: “Entre os séculos X e XIX, Roma canonizou 87% de homens e 13% de mulheres. Aqui se revela um modelo predominantemente masculino, que corresponde fielmente à tradicional inferioridade das mulheres na Igreja. Sem que o procedimento tenha se modificado para favorecer as mulheres, no século XX a proporção passa para 76% de homens e 24% de mulheres” (cf. RELaT No. 150, servicioskoinonia.org/relat/150.htm). O modelo predominante da pessoa canonizada é branco, masculino, solteiro, clérigo, religioso/religiosa... e, principalmente, de classe alta.

Tradicionalmente, a canonização estava praticamente vedada aos cristãos leigos e leigas, pelo trabalho que dão os processos investigativos e históricos necessários, pela lentidão da burocracia das congregações romanas e, acima de tudo, pelo alto custo econômico dos processos. Somente clérigos que contam com o apoio de uma Igreja local, ou religiosos/as cuja congregação esteja interessada em exaltar sua santidade, podem ser “candidatos” viáveis e com possibilidades reais de seleção.

Canonização rápida e muito aclamada foi a de José María Escrivá; a Opus Dei, naquele momento colocada no cume do escalão das fileiras das entidades influentes no Vaticano do Papa Wojtila, empenhou-se com afinco na sua promoção, e sua “canonização” acabou sendo – segundo a Opus Dei – a que reuniu o maior número de pessoas na Praça São Pedro, em Roma...

A explicação não foi difícil de encontrar: apenas o fundador de uma instituição com muitos membros leigos da classe alta poderia pagar tantos voos para Roma procedentes de todos os continentes. Mas deixou de ser a mais numerosa quando, logo depois, foi canonizado o Padre Pio de Pietrelcina, cujos devotos não eram tão empoderados financeiramente, mas eram principalmente italianos, e puderam deslocar-se facilmente a Roma em massa. O número de pessoas que participam de uma canonização não mede o valor da “aclamação popular” de um santo.

O caso de Romero também foi uma “aclamação popular”. Romero transformou-se “no centro-americano mais conhecido” em todo o mundo, o “salvadorenho mais universal”. Não foi um santo local, de uma Igreja diocesana particular, nem de um país, nem mesmo da Igreja Centro-Americana ou de toda a Igreja da América Latina, mas um santo “universal” – aclamado em todas as partes do mundo – e “ecumênico”, reconhecido também pelas Igrejas protestantes – ficou célebre a estátua de Romero entre as estátuas da abadia de Westminster... Ele também foi um santo “macroecumênico”, reconhecido e aclamado por agnósticos e não crentes, ultrapassando os limites da fé e das religiões. Santo, pois, Romero, por “aclamação popular” do Povo de Deus, por “aclamação mundial” nos muitos “povos de Deus”.

De que outra canonização dom Romero tem necessidade? O que lhe falta? O que uma “canonização oficial” em Roma poderia lhe acrescentar? Estas são as perguntas que, dizemos, Casaldáliga respondeu para si mesmo quando visitou o túmulo de Romero em San Salvador: “ele é santo de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada”. Para muitos de nós hoje continua sendo válida aquela resposta que ele deu há trinta anos.

O fato é que, além disso, passado esse tempo, entramos “em outra época”... Muitas coisas mudaram e inclusive nós mudamos muito.
Extrapolando as palavras de Casaldáliga, hoje poderíamos dizer: “Que não o canonizem, porque seria como se continuássemos naquela época da qual já saímos faz tempo”.

De fato, hoje, a pergunta é mais profunda: o conceito clássico de “santos canonizados” da Igreja católica ainda faz sentido? E poderíamos desdobrá-la em várias outras:

• Existem realmente os “santos canonizados”, os oficiais, os clássicos, aqueles que estão na “corte celestial” do “Rei e Senhor” do céu e da terra, no “segundo andar”? Todos os nossos avós pensaram que sim, e eles se beneficiaram muito com sua intercessão... Mas, e para nós hoje?

• É possível entrar nesta corte privilegiada porque o candidato é submetido a uma avaliação realizada por uma comissão examinadora especializada, a Congregação do Vaticano para os Santos? Pode um processo de canonização “tornar santo” a alguém, ou é algo externo que não pode afetar a sua santidade?

• Podemos aceitar como algo natural, sem corar – em pleno século XXI! – que aquela avaliação inclua como requisito a realização – “cientificamente comprovada” – de dois “milagres”?

Vamos tentar responder, quase telegraficamente, a esses desdobramentos da pergunta:

• A canonização de santos na Igreja católica é uma criação medieval, oficialmente criada em 1234 pelos Decretais de Gregório IX, embora somente a partir do Papa Urbano VIII, em 1634, fosse reconhecida praticamente em toda a Igreja. Não faz parte de seu patrimônio bíblico, dogmático ou teológico. Talvez esse seu “segundo plano” na hierarquia do essencial na Igreja é o que lhe permitiu subsistir e passar despercebida nos momentos avaliativos altos da Igreja, como os últimos Concílios Ecumênicos. Sempre houve coisas mais importantes na Igreja, que reivindicaram atenção prioritária. Assim, as canonizações – seu significado e seus processos concretos, assim como chegaram até nós –, são, hoje, um “anacronismo” que sobreviveu pela negligência de que foram e continuam sendo objeto, e fazem parte dessa lista de atavismos que “bradam ao céu” pedindo para serem revisados e atualizados radicalmente.

• Como o benemérito teólogo jesuíta flamengo Roger Lenaers (cf. Wikipedia) nos mostrou tão pedagogicamente (em Outro cristianismo é possível – A fé em linguagem moderna. São Paulo: Paulus, 2010), não existe um segundo andar cósmico no qual se pode instalar aquela célebre e admirada “corte celestial”, que tantos e tão afamados artistas nos apresentaram em inesquecíveis obras de arte, em quadros, gravuras, retábulos, cúpulas... que marcaram (inclusive inconscientemente) a nossa espiritualidade e povoaram de rostos beatíficos, anjinhos, nuvens... o nosso imaginário religioso coletivo.

A ciência e a filosofia majoritárias atuais não reconhecem nada que seja “externo” à Realidade. Não há esse segundo andar lá em cima (up there) e lá fora (out there) onde se possa instalar a sede dessa corte, que não é corte, nem é celestial. Podemos ficar com a intuição contida nesta crença tradicional, como a de quem lavou a criança na banheira e joga fora a água suja que já não tem mais serventia, mas tirando a criança.
Podemos salvar a criança, a intuição profunda aí veiculada, mas será partindo de outras bases (outros paradigmas) e expressando-a com outras metáforas (não as já obsoletas), e sendo conscientes de que são isso, metáforas, de jeito nenhum descrições realistas.

• Obviamente, uma canonização não “torna santo” ninguém. A pessoa que é santa na hora da sua morte é santa, e não deixará de sê-lo, mesmo que ninguém o saiba ou ninguém se importe em apresentar sua candidatura à Congregação dos Santos. E a pessoa que não é santa, nunca será, nem mesmo se essa Congregação a faça “santa”, isto é, simplesmente a “declare” santa. A canonização nada mais é do que uma “declaração”, não uma “santificação”; quando morremos, quando termina o nosso status viatoris, não é mais possível mudar, nem crescer em santidade – sem entrar agora na necessária releitura da escatologia clássica. Se o sangue martirial culminou a santificação pessoal de Romero, ele foi santo, embora ninguém jamais o tivesse pensado ou proclamado após a sua morte. E o fato de que agora seja proclamado, não acrescenta um milímetro à santidade que ele alcançou em vida, até a sua morte; simplesmente dará aos seus admiradores mais razões e mais possibilidades para conhecê-lo, admirá-lo e imitá-lo. Na realidade, o que está em jogo em uma canonização é algo totalmente exterior à santidade do próprio candidato.

• A questão dos “milagres” merece uma ênfase especial. É inexplicável como, em pleno século XXI, ainda persiste entre as congregações vaticanas uma que “comprovação” científica da veracidade dos “milagres requeridos” para uma canonização institucional... É outro anacronismo medieval, um estranho sobrevivente no meio de uma Igreja que, no Vaticano II, parecia reconciliar-se com a sociedade culta, profundamente marcada pela ciência. Será que sobrevive por causa dos interesses econômicos envolvendo a cúria romana? Ou talvez também por causa do imobilismo e da habitual preguiça das instituições religiosas diante de sua própria renovação? Ou porque não se dão conta de que o “credenciamento de um milagre” feito pela Igreja credencia também a cosmovisão medieval em vigor em seus quartéis centrais? Até quando
querem fazer comunicar com rodas de moinho os crentes que já têm a cabeça configurada em sintonia com a sociedade moderna?

• Uma boa notícia, urgente para muitas pessoas que se sentem mal com estes processos e declarações eclesiásticas de canonização, é que, embora durante séculos fossem consideradas extra-oficialmente “dogmática, de fé” (como se a canonização fosse uma espécie de proclamação do dogma de que “tal pessoa está no céu” – recordo perfeitamente que assim a nossa geração nos apresentou isso na catequese), hoje sabemos que podemos prescindir de todos esses elementos mítico-medievais aos quais fomos aderindo subrepticiamente ao longo das obscuras idades passadas. É verdade que não devemos perder muito tempo com isso: compreendemos bem que tanto na Igreja como na sociedade encontramos pessoas que estão claramente na Idade Média e que se sentem bem nesse ambiente religioso “tradicional”. Hoje aceitamos bem a interculturalidade, o pluralismo cultural e religioso. E reivindicamos a mesma liberdade para nós. Ao lado daqueles que estão mentalmente no século XIII, já existem pessoas que pensam como se pensará no século XXII. Todos têm o direito de viver coerentemente com a sua consciência e de serem respeitados.

Diremos, finalmente, que nos sentimos em comunhão, em sincera estima com Romero, sem precisar dessa albarda acrescida ao seu título oficial de “santo canonizado”, que nos evoca tantos elementos ultrapassados ou mesmo obsoletos para nós. Mas não devemos ficar incomodados com seu uso por parte de outras mentalidades que também expressam seu carinho e sua comunhão com Romero por meio desse mundo de categorias e suposições que nós, há muito tempo, abandonamos. Nós respeitamos essa pluralidade que caracteriza o nosso tempo e a nossa Igreja hoje, e somos muito capazes de aceitá-la, sem que, por isso, um simples título de atribuição de santidade canônica, nos faça retroceder, qual cavalo de Tróia, a uma mentalidade da qual já saímos. Nos sentimos tão convencidos em nossa maneira de ver, quanto tolerantes com os velhos pontos de vista; tão fiéis à essência-essência da boa tradição, quanto livres de adesões medievais, platônicas, mitológicas, agrárias... inclusive neolíticas.

A partir dessa visão, fica claro que não precisamos que Romero seja canonizado. “Ele é santo de um modo muito particular. Já está canonizado. Pelo povo. Não é preciso mais nada”. (E, claro, uma vez acabada a Idade Média, é óbvio que sobram todos os milagres “requeridos”.) Mas entendemos que boa parte da Igreja e da sociedade vai se sentir ajudada, e até mesmo comovida, por esta “declaração oficial de reconhecimento de sua santidade e de seu martírio”. Nós compartilhamos sua alegria. A esta altura da história, com o tanto que choveu depois de 24 de março de 1980, já não nos parece uma “ofensa”, mas, sobretudo, uma “reabilitação” adicional, redundante, mas útil, sobretudo para as hierarquias religiosa e civil que durante décadas se opuseram ao reconhecimento de “São Romero da América”. É uma boa notícia.

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