quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Galeria dos Mártires - Frei Diego Cristóbal Uribe Escobar

Frei DIEGO CRISTÓBAL URIBE ESCOBAR
Mártir do Evangelho da Libertação
COLÔMBIA * 02/12/1981

Diego Cristóbal Uribe Escobar nasceu em Envigado (Antioquia) em 11 de agosto de 1942, filho de José Maria Uribe e Gabriela Escobar. Seus primeiros anos foram passados em sua cidade natal, onde frequentou a Escola Modelo (agora Fernando González) e o Colégio Jesus Maria Mejia (Mais tarde La Salle), e a partir daí passou a estudar filosofia e teologia com a ordem dos franciscanos.

Referindo-se a esta fase de sua vida e em particular a influência de casa, em sua formação, ele escreveu à sua mãe:

"Tudo começa a partir de casa, desde a formação, com os conselhos e exemplos de ti recebido: desde a infância você ajudou a formar em mim um sentido profundo justiça, honestidade, responsabilidade e amor aos pobres. Isto foi o que me levou a sair de casa e buscar a viver o mais fielmente possível a estes princípios por meio do sacerdócio e dentro da comunidade franciscana. Ali na comunidade recebi novas contribuições para minha formação...", (Maio de 1978).

Em janeiro de 1961, ele entrou para o noviciado franciscano em San Luis de Ubaté (Cundinamarca) e ali mesmo fez a sua profissão religiosa em 16 de Janeiro 1962. Nesse mesmo ano começou seus estudos de filosofia na Universidade de São Boaventura de Bogotá, onde concluiu o curso no mês de novembro 1964. Após um ano de práticas de ensino na escola de San Francisco Solano da Armênia, continuou seus estudos teológicos em Bogotá por quatro anos, e no final do curso de teologia, foi ordenado presbítero no 13 de dezembro de 1969 por Dom Alfonso Uribe Jaramillo, na Igreja San Benito Medellin.

Sua primeira missão como sacerdote foi em Micay Lopez, uma isolada Paróquia ao longo dos rios e Micay e Naya, pertencentes a 1ª Prefeitura Apostólica de Guapi, na costa do Pacífico. Foi lá que ele começou colocar em prática plenamente o seu sentido de responsabilidade, honestidade e justiça: "... dentro da vida franciscana e sacerdotal eu encontrei uma maneira de viver buscando realizar esses valores que eu inicialmente aprendidas em casa". (Maio de 1978).

A experiência ministerial em López foi a que realmente marcou o início de sua opção radical pelos pobres. Nesta época vieram a lembrança suas palavras escritas em agosto 1979: "Fazem mais de sete anos que venho analisando e refletindo mais profundamente estas coisas".

O contato com a miséria dos negros do Pacífico, vivendo confinados nas margens dos  rios como o último reduto da escravidão, comoveu profundamente a sensibilidade de Diego, vendo-os vítimas da ganância de madeireiros e das manipulações dos politiqueiros na região. Foi nessa realidade de opressão onde começou a sentir a responsabilidade de seu compromisso histórico como a de quem deve transportar uma carga delicada através de uma corrente de tempestade.

"É como quem atravessou uma corrente muito forte e perigosa levando uma delicada carga e  concluído com êxito, porém, atrás vem outros que lhes cabe também enfrentar com delicadas responsabilidades a mesma corrente, que cada dia se torna mais tempestuoso. Agora tenho a satisfação do dever cumprido, porém, tenho também a expectativa de quem está os vendo, mais conscientes e formados para seguir enfrentando essa corrente. Pode ter certeza que estou nessa luta em circunstâncias diferentes das suas, porém, impulsionado pelos mesmos princípios dos quais eles têm me ensinado com suas palavras e exemplos”. (Dezembro de 1979).

Sua índole pessoal o levava sem dificuldades a fazer análises serena e profunda dos acontecimentos da história, ao ritmo do qual adequava paulatinamente suas decisões, que se tornavam firmes e definitivas na medida em que referendada por seu estudo. Este esforço de reflexão tornou mais constante particularmente durante a sua experiência de profecia e serviço aos pobres de sua paróquia de San Vicente e o levou a buscar novos caminhos, que se concretizaram em um chamado que sentia cada vez mais exigente e que e definitivamente mudou o curso de sua existência.

Ele pensou que era necessário pertencer a uma organização político-militar, como o único caminho para acelerar a mudança por ele tão desejada e foi assim que se inscreveu nas fileiras do Exército de Libertação Nacional, que tinham militado os sacerdotes Camilo Torres e Domingo Laín.

Com Camilo - dizia constantemente - aprendi que "a revolução é um imperativo cristão".

Diego recebeu, como todos os jovens de sua geração, os impactos renovadores do pensamento Camilista, e seus límpidos ventos penetraram o mais profundo seu ser. Dedicou os melhores anos do sacerdócio às causas dos pobres, e com eles compartilhou suas angustias e necessidades, seu escasso pão e sua gana infinita de construir um mundo digno. Homem de pensamento universal, seus estudos o baseou em um permanente contato com a realidade social e política da Colômbia.

"tenho chegado ao convencimento de que devo lutar como sacerdote e como franciscano por meu país e por todos os povos do mundo para que seja eliminada a exploração capitalista e qualquer outro tipo de exploração. Faço parte hoje de uma organização político-militar do povo, que, sob o nome de Exército Nacional Libertação (ELN) busca acabar com a exploração capitalista e estabelecer um sistema socialista onde podemos verdadeiramente nos tratarmos como irmãos". (Outubro de 1978).

Quem lê estas palavras sem mais referência, pode imaginar que quem a escreveu era um homem de temperamento irracional, intolerante ou impulsivo, porém, aqueles que o conheciam de perto, seus irmãos, garantem que a nota representa o temperamento de Diego, que desde a infância era precisamente a mansidão. Portanto, esta decisão foi o resultado de uma reflexão ponderada, tal qual ele costumava fazer suas coisas. Sua nova opção foi gradualmente amadurecida e não só exigiu longas horas de reflexão, mas chegou até a renunciar as exigências naturais de afeto familiar em seus esforços para ser fiel ao seu compromisso. Assim nos faz compreender neste trecho da carta que escreveu para sua mãe:

"... Desde antes de me comprometer mais seriamente na missão que me encontro cumprindo, eu vi que isso implicaria um sacrifício muito grande para você; isto eu pensei muitas vezes. Porém, por outro lado, eu tinha o meu compromisso de fidelidade como sacerdote e franciscano e, dentro disso, o meu ideal de serviço à humanidade, ou seja, a missão que como homem devo cumprir neste estágio da história que me cabe viver. E depois de muito pensar, resolvei seguir com o meu compromisso, convencido de que, no final, saberás entender o valor em meio ao sofrimento moral, a entender que prefere um filho um pouco distante fisicamente de você e não um filho perto, mas amargurado por ser um traidor de seus próprios ideais, da missão que o Senhor lhe atribuiu". (Julho de 1980).

"...a cada dia mais pessoas se conscientiza do clamor por justiça do Evangelho e a angustiosa necessidade do povo trabalhar. Querida mamãe, eu não posso pensar de maneira diferente, porque tenho tratado de abrir os olhos para a realidade de nosso país e tratado de sentí-la de perto. Pensar e agir de forma diferente seria trair a mim mesmo, a minha vocação, o Evangelho. Ficar quieto e não fazer nada contra a injustiça cada vez maior, seria para mim o pior sofrimento. Não pense que agora sofro; agora eu entendo melhor o que diz o Evangelho: "Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça". (Março de 1979).

Texto elaborado por Tonny, da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

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